A alegria toma conta

Nos pequenos recortes de papel sulfite colorido eram escrito os nomes, uma característica e a expectativa do dia. As canetinhas contribuíam para colorir ainda mais aquele espaço. Em círculo, Eulália Calixto, facilitadora da formação, instruía a conversa que viria em seguida: em duplas eles precisavam se apresentar uns aos outros para que depois o apresentasse ao grupo. Um exercício de escuta e de memória.

Andressa Nogueira gosta de ser chamada de Dê. Quem contou foi Celinho (Juscelino das Mercês). Contou ainda que ela fez um longo trajeto até chegar na Fundação Dixtal, pois mora no Bairro do Limão. “Ela é muito alegre e a gente precisa disso. A Dê tem a expectativa de encontrar o amor nas Rodas”, comentou o voluntário.

Fala a fala, ia se compondo o quadro de pessoas presentes. Durante as apresentações, a memória falhava às vezes e pregava peças. Alguém confundia a fala de um com a conversa que teve com outro. Os episódios causavam risadas coletivas, que elevavam o humor do local.

No período da tarde a mediação foi feita com a poesia Porém, de Sergio Vaz. Dançando, a Roda começou com a música Epitáfio, dos Titãs. Uma conversa sobre o que remetia a letra daquela música. “Faz-me lembrar a vez que fiquei internada para fazer uma cirurgia”, contou Renata Mendes, estudante de Pedagogia. Por fim, um memorial de sonhos. E cada um pode sair com um sonho do outro para ser realizado, para ser guardado, para ser sonhado.

Voluntários se apresentam durante a dinâmica inicial

Eis nosso novo espaço!

Esse é o nosso novo cantinho!

Vamos utilizar esse espaço para nos relacionarmos, trocar informações e aproveitar para enriquecer nossa atuação dentro do Programa 1 Milhão de Rodas.

Fique a vontade para comentar, sugerir novos posts, fotografias, debates…

Ficamos à disposição para qualquer dúvida.

comunicacao@fundacaodixtal.org.br

www.fundacaodixtal.org.br/ (11) 5852-5452

Hello world!

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Maratona de Férias…

E a Maratona de Férias chegou ao fim…

Durante esta semana de atividades envolvendo todos os colaboradores da Fundação Dixtal tivemos o prazer de receber você para construir conosco maneiras de melhorarmos o nosso trabalho.

Obrigada por ter colocado a mão na massa para dobrar os Origamis, por ter tirados os pés do chão durante as Danças Circulares e ter vindo aberto aos Jogos Colaborativos.

Discutimos os limites entre a Autoridade e o Autoritarismo, conversamos sobre a importância do trabalho com a História Oral e Memória e aprendemos juntos a fazer Divulgação em Rede do trabalho que desenvolvemos, a exemplo do que faz o site Catraca Livre.

Nos três dias, quase 200 pessoas pisaram em nosso espaço.

Um muito obrigado em nome de toda a equipe da Fundação Dixtal.

E o ano que vem tem mais!!

Equipe Fundação Dixtal

Roda XI – Esculpindo outras realidades

Na roda anterior, combinamos Camila, Bruna, Rogério e eu que, sendo a útima roda, fariamos juntos, especialmente porque o número de participantes estava baixo. Combinamos de passar um trecho do filme Mãos Talentosas que conta a história de um dos mais célebres neurocirurgiões do mundo, que desvendou o seu talento por meio do empenho em estudar. O trecho que mostraríamos contava a história da sua infância: menino negro e pobre que tinha preguiça de estudar e se achava burro, com notas E e F no boletim; com incentivo da mãe para estudar, se empenhou até ganhar a sua primeira nota A. A Bruna, que ficou de elaborar uma atividade de encerramento, trouxe bexigas compridas para ensinar os alunos a fazerem uma escultura de cachorro nelas.

Do filme, a forma como sua mãe o incenticou, sendo analfabeta, divorciada – abandonou o marido quando descobriu que ele traficava drogas – vinha de encontro com algumas leituras recomendadas da fundação, que falam em psicologia sobre Mindset: ela dizia para ele que era capaz, e em seu cérebro havia todo um mundo que precisava ser descoberto, que poderia usar sua imaginação para compreender as coisas e sua inteligência estava ali para ser usada; quanto mais estudasse, mas inteligente ficaria.Ela precisou ser persistente para combater a resistência dele e principalmente sua preferência em passar as horas livres na frente da televisão.

Pensei em quantos participantes viriam naquele dia, especialmente por causa do movimento das últimas semanas, e das confusões que aconteceram. O menino da geladeira tinha me deixado um recado explicando porque faltara na aula passada, dizendo ter entendido que não haveria roda por causa de reposição de aulas marcada para o mesmo horário da roda. Procurei a fundação e a escola, mas ninguém sabia informar, estavam dispersos da nossa roda, possivelmente ocupados com outros assuntos; como de costume, geralmente consigo ajuda quando procuro e se ofereceram para tentar trazer mais alunos para esta roda. Discordei pois era o último sábado antes das férias e a pausa iria dispersar novamente, teriamos retrabalho em agosto.

Na escola, encontrei a coordenadora, preparando a sala para uma palestra aos professores e pude contar com a ajuda dela para obter outro notebook já que o meu não deu sinais de som, mesmo testando as caixas que a Camila trouxe e as da escola. Tivemos que ser persistentes, pois nada funcionava, inclusive o dvd e a tv da biblioteca inutilizada. Finalmente, conseguimos conexão e os meninos e meninas, ao todo 12, entre eles a menina da 8a. série que vinha há três sábados seguidos, o menino de Picasso sem o irmão, a menina leitora, e dois irmãos que tinham voltado por causa da promessa de passar o filme, que tínhamos comentado na aula passada. Nenhum dos meninos da 8a. série tinham vindo.

O menino de picasso trouxe de volta o livro que havia emprestado e dois quadros que a mãe pintava: um abstrato e um com um casal de adolescentes apaixonados; ele trouxe de volta o livro que o menino da 7a. série tinha trazido mais cedo, deixando o recado que não poderia vir para a roda pois precisava ficar com a avó. O interesse por artes era algo cultivado dentro de casa e possivelmente o ajudaria a se desenvolver mais.

Depois do filme, começamos a conversar sobre o trecho visto, pareceu-nos que tinham gostado, uma das meninas da 6a. série foi bastante falante e comentou todo o filme relembrando as partes que via, outra ficou animada com certas passagens, como a dos meninos, sobre o quanto era bom conseguir uma nota alta. Trouxeram várias histórias, do menino que dizia que não estudava e tirava 10: perguntamos se ele fazia as lições de casa e dissemos que pelo menos a atenção com as lições e na aula é mostra de de empenho; também de como as mães buscavam fazer com que os filhos estudassem mais ou fizessem as tarefas de casa: tiravam a internet. Aproveitamos estas associações com dever de casa para dizer que há o que aprender com que fazemos: o ganhamos em arrumar o nosso quarto? “Encontramos as nossas coisas”, “Fica tudo limpo e arrumado”, “Aprendemos a ser organizados.”, responderam.

Embora o bate-papo tenha ficado mais animado com a caixa de chocolates que a escola nos trouxe, o mais desafiante no filme era se dar conta de que possivelmente a mãe deles não os incentivava a estudar para ser tudo o que sonhava em ser na vida e provalvelmente não os incentivava da mesma forma. O que fazer? “Buscar ajuda de outras pessoas”, “Outros parentes”, “Amigos”, “Na escola”, em si mesmos, comentou o Rogério. A roda, lhes disse, era um dos espaços para incentivá-los a se descobrir, ser tudo o que quisessem ser por isso estavamos ali, lendo estórias e recebendo/dando mensagens.

A hora final da atividade, foi bem divertida: como transformar bexigas em cachorro. “Vocês são capazes, a ideia é mostrar que somos capazes de aprender coisas novas.”, disse Bruna E assim, entre risos e tentativas, todos fizeram cachorrinhos coloridos e partiram para suas férias.

Fiquei pensando depois, que a atividade tinha sido uma combinação perfeita com a ideia do filme: tínhamos um cérebro nas mãos, com um mundo a ser explorado, com ideias que poderiam ser concebidas de várias formas, poderiamos esculpir a nossa realidade, a nós mesmos como quiséssemos. Teria sido muito bom conversar sobre a atividade, mas a hora de ir chegou.

Lembrei-me dos meninos que não vieram e das conversas que tive nestas últimas semanas: quando reclamei por ajuda por causa da queda de participação, as reações mais reais diziam que sabiam que isso aconteceria, dizendo que era uma ilusão achar que chegaríamos a algum lugar com eles: o meio em que vivem, familiar e comunitário, desconstrói tudo o que a escola ou a roda constrói, a sociedade deformadora vence na maioria dos casos. Tenho certeza que muitas vezes me acham ingênua e arrogante: “tentamos de tudo, você acha que consegue o quê?”. Pode ser que estejam certos quanto as minhas atitudes, quando somos inexperientes, somos felizes, assim dizem das crianças, pois não nos frustramos ainda e acreditamos em tudo.

O que acho inadmissível em mensagens assim, é a falta de auto-observação: acreditam mais na deformação do que na formação – se escandalizam com tudo, generalizando uma tragédia de um, como sendo o caminho de todos, tendemos a ser mesmo mais negativos do que positivos e somos muito preguiçosos ou pouco humildes – do tipo que faz tudo, mas não revê se o que está fazendo é realmente eficaz, não pede ajuda, não encara a possibilidade de que talvez esteja fazendo esforço inútil, mal-orientado -, postura que vejo em toda parte até mesmo entre pessoas do escritório onde trabalho que tem responsabilidades importantes.

Que bom que tivemos nos história humana, pessoas comuns, intituladas gênios, que tiveram uma ideia e se esforçaram por ela, tentaram mil vezes, até acertar. Nós, abandonamos depois de duas ou três tentativas.

Quando voltei pra casa depois do meu compromisso, deitei-me pra ler, mas não consegui; fiquei um pouco arrasada com a incompreensão, com a descontinuidade – a impressão é que muitos esperavam pelo fracasso: deveriamos ter chegado a um bom desenvolvimento dos participantes da 8a. série, mas decaiu. A realidade é dura, a concorrência contra este trabalho no sentido inverso é dura. Mas é possível mudar. Já saí da fase adolescente que deseja mudar o mundo no grito, entrei na fase adulta de quem deseja mudar o mundo com esforço bem orientado, mão na massa cerebral e na massa humana pra fazer acontecer aquilo que esperamos e está só na cabeça ou no coração. Pra isso, tenho muito o que aprender, muito o que tentar.

Talvez eu esteja muito longe da solução que gostaria, mas não vou desistir de encontrá-la. Tenho boas ideias – educadores das escolas realistas, como Paulo Freire, o homem das ideias simples e muito difíceis de implementar pois requer muito coração, muita discplina e muita humanidade – e boas mãos, vou me dar ao trabalho de aprender mais e produzir até encontrar nova solução e viável. Enquanto isso, a semente vai germinando nos solos bons e naqueles não tão bons mas que nos damos ao trabalho de limpar e fertilizar ao longo deste semestre: tenho certeza que, apesar da inconstância da participação dos alunos, nenhum dos nossos esforços, empenhados com sinceridade de coração, ficarão em vão.

Roda X – Mensagens pela Educação

Outra manhã de sol e em poucos minutos chegaram o menino gentil, o menino leitor, o menino hiperativo e uma nova menina que passou a vir desde a roda passada. Para a roda, pensamos em levar a campanha da Marque um Gol pela Educação para que começassem a refletir sobre o que representava o fato de irem à escola diaramente para a formação de sua identidade, já que vínhamos trabalhando por ela e desejávamos caminhar na roda para leituras que os ajudassem em práticas fáceis para fazerem por si mesmos no seu dia-a-dia.

Aos poucos algumas meninas da roda da Bruna e do Rogério foram chegando, mas também não em quantidade suficiente para formar uma roda e sem um plano para aquele dia, resolvemos fazer uma só. O menino que tinha se encantado com a fase azul de Picasso e vinha com seu irmão de cinco anos veio e trouxe um amigo chamado Pablo, dizendo com alegria: “Trouxe um Picasso pra roda !”, também chegou o menino da 7a. série série que tinha levado um livro emprestado, levando um do Harry Porter e as meninas que costumam vir.

Enquanto arrumávamos a sala, os irmãos se desentenderam e o irmão menor começou a chorar; fui entender, o menino de Picasso tinha batido no irmão porque ele não sabia pegar o livro que estava lendo. Expliquei que ele não sabia pegar no livro porque não tinha aprendido ainda, deveria ensiná-lo, mostrei como ele poderia, pedi que se perdoassem e acabassem com um abraço. O menino gentil que nos observava atentamente, vestiu o capuz da sua sua blusa, a levantou, deixando apenas os olhos de fora, ficando de cabeça baixa. Resolvi não dar atenção ao gesto e procurar estimulá-lo a participar.

Perguntamos o que imaginavam que significa Marque 1 Gol e Educação pra eles, assim, fomos percorrendo os conceitos: a campanha visa arrecadar votos pela internet para que façam um grande documento que visa garantir educação e escola para todas as crianças até 2015 e muitos craques de seleção, artistas, apoiavam a campanha. A conversa rendeu alguma participação ao pensarmos que 72 milhões de crianças no mundo não tem escola, que há quase 1 bilhão de analfabetos adultos, que a educação é mais negada às meninas e a educação promove a prevenção de doenças, melhora a renda e reduz o índice de mortalidade infantil. Assim como para muitos de nós, Educação não tem um significado de desenvolvimento e sim de polidez no trato, é questão de bom dia, boa tarde. Eles trouxeram histórias das dificuldades que parentes analfabetos tinham em sair na rua, ou mesmo de trabalhadores ou motoristas que cometiam erros porque não tinham informação suficiente. O menino de Picasso – que tinha uns doze anos e estava na 6a. série, comentou a hipótese de um advogado que não tinha sido um bom aluno; inventou a história de como seria sua trajetória, desde o fim da escola até o dia de se apresentar ao tribunal e ter que defender um inocente – como conseguiria ganhar se não tinha aprendido como fazer isso?

Finalizando com a ideia de que sem aproveitarmos a oprotunidade que a esocla nos dá, tornamos-nos refém das pessoas e muito necessitados de ajuda, que nem sempre estará a disposição. O melhor pra nós, é cuidar do nosso desenvolvimento e formação, começando por prestar atenção às aulas, fazer as lições de casa que os professores pedem – um ótimo começo.

O menino gentil participou, mas à medida que outros garotos tomavam mais espaço, falavam mais, voltava a ficar cabisbaixo e num momento, ficou tão encapuzado, que escondeu os olhos também. Era o momento de falar com ele, entender o que estava acontecendo e dependendo do que trouxesse, fazê-lo entender que aquela atitude não o ajudaria na vida. Mas registrei a mensagem e preferi deixar a manifestação em aberto, fazendo uma aposta de que ele pediria atenção de outra forma ou simplesmente estava num dia em que preferia se recolher. Quando terminou a tarefa, saiu sem se despedir de ninguém.

Por fim, pedimos para que entrassem no site e olhassem a campanha, incentivando sua participação e pedimos para escreverem mensagens de incentivo para as crianças não tem oportunidade de ir à escola como eles. Pensando bem agora, talvez seja interessante postar as mensagens para o pessoal da organização aqui no Brasil, mas o mais importante é que ao escrever para alguém, refletiam na mensagem para si mesmos. Algumas, transcrevo:

“Pra você que não está na escola, entre na escola, não é ruim apresar de certas coisas, a escola é boa, os professores. Nós fazemos a escola. Siga em frente.”, Lais,

“Vá para a escola pois lá, você irá aprender a compartilhar suas coisas, vai fazer amigos, e vai receber ajuda quando precisar, sua vida vai melhorar mesmo que sua família não seja alfabetizada, pois você vai poder ensinar muitas coisas pra ela e também irá aprender a ler, não vai precisar depender das pessoas para ler as coisas pra você.”, Beatriz

“Não perca a sua fé, você terá chances de estudar um dia e muitas coisas você aprenderá.”, Israel,

“Oi criança, estou mandando esta carta para incentivá-la na sua educação, quero dizer que estudar é muito importante pra você e por isso, se esforce. De uma pessoa que te quer ver feliz, Maria”, Maria

Roda IX – Fase azul

Depois do café, minutos antes de ir para o Octales, pela primeira vez pensei nas minhas duas últimas semanas: cheias de novidades, encontros e esforços pra vários ciclos das minhas relações em encerramento, requerendo atenção pra que tudo tivesse um, digamos, bom fim: o fim deve ser igual ou melhor do que o começo, penso agora, depois de ter deixado pra trás muitas coisas inacabadas quando eu era mais jovem.

Precisei me concentrar, não podia haver nenhuma hesitação para fazer o que havia pela frente, acho que foi por isso que escrevi menos, praticamente nada. Foi então que percebi que embora seja essencial pra mim que eu escreva, a outra face é pensar demais e assim, seguir, ao invés de em frente pra vida, ao contrário, fugir dela, especialmente pra ficar correndo atrás das sombras das pessoas e coisas, o que me impressiona pelo ruim e me faz “pensar” na necessidade de esperança, mantendo atenção no futuro e não no presente.

A última roda tinha acontecido no Octales, no dia 22 de maio e hoje, dia frio e chuvoso, era o primeiro fim de semana com jogos da Copa do Mundo. Cheguei na escola, pátio cheio de mapas dos países participantes da Copa desenhados; na sala de aula, en quanto organizava os preparativos coloquei no radio, Jacksons Five: ABC, I’ll be there, Ben, Happy e foram chegando Camila, Rogério, Bruna, os meninos e meninas.

Como imaginamos, duas semanas de pausa, frio e Copa não colaboraram muito para trazer os alunos: da 8a. série, apenas o menino da geladeira e o menino gentil, que chegou quase no fim da roda, pra trazer de volta o livro que tinha tomado emprestado e participar um pouco. Vieram outras crianças ao longo do encontro, de quinta a sétima série, ao todo 14.

No começo da roda, como tinhamos alunos para a uma roda, resolvemos fazer todos juntos, especialmente porque nós tinhamos um plano: retomar um trecho do conto lido nas últimas rodas do Arthur da Tavola, Fazer o Amor Bonito e com base nele, fazer uma oficina de artes, pra que eles exercitem uma expressão de algo imaginado em si de forma bonita, para o mundo.

O trecho: “Não tenha medo, principalmente de tudo o que você teme: a sinceridade; não dar certo; depois vir a sofrer (sofrerá de qualquer jeito); abrir o coração; contar a verdade do tamanho do amor que sente. (…) Talvez aí você consiga fazer o seu amor bonito,ou bonitar fazendo o seu amor, ou amar, fazendo bonito.”

Lançando as questões na roda, todos contaram coisas que viam, que conheciam. Uma das meninas disse que a verdade maior e mais bonita pra se contar a alguém é “Eu te amo”, o que ela tinha dito pra mãe dela na semana passada; Rogerio propôs que disséssemos a nós mesmos, especialmente para saber dizer a outra pessoa; um dos meninos que tinha vindo só pra jogar bola e acabou ficando, ficou inconformado com a idéia: ” não dá ! “. O menino que tinha tinha chegado cedo com seu irmão menor de uns cinco anos, magrinhos, com poucas roupas quentes, de chinelos, falavam com muito ânimo das suas experiências: tinha visitado a Pinacoteca na semana passada: viu Picasso e sua fase azul, falou também que sua avó trabalha num lugar onde as pessoas não tem mãos ou braços e pintam com a boca.

Dos quadros que a Camila trouxe impressos que eram recortes de grandes artistas para introduzir a oficina e aquecer a imaginação, opiniou sobre todos os aspectos perguntados com muita imaginação. Botões, retalhos de tecidos, fitas, revistas velhas, guache pincéis, folhas coloridas, colas e tesouras, tudo foi explorado, tiveram prazer em desenhar e pintar. E assim, ficamos até o final.

Um dos meninos da 7a. série que tinha vindo pra ver como era, saiu animado dizendo que tinha adorado e na próxima semana traria seu caderno de desenhos pra nos mostrar; durante o trabalho tinha deixado cair muita cola sobre o papel e se perdeu, pediu uma orientação sobre o que fazer: “E agora? O que eu faço?” Demos atenção propondo opções: colar retalhos, botões ou papéis onde a cola caiu, recortar papéis com formas diversas e imaginar uma composição. Gostei da atitude: ele não abandonou o trabalho porque não saiu como planejado, mas sem saber como salvá-lo, pediu ajuda, ouvindo com a atenção as alternativas e fazendo sua escolha. Foi lá e fez, talvez por isso tenha saído dali, ao final, tão animado e com um livro emprestado – o livro de quadrinhos de contos de suspense que o menino gentil trouxera de volta -, pelo qual fez questão de deixar anotado o nr do seu celular e que traria no sábado seguinte.

O menino da geladeira ficou calado durante a roda, embora tenha feito o desenho. No desejo escreveu muitas referências sobre amizade, confiança e também passou mensagens negativas, talvez, de socorro, como desconfinça, vontade de destruir ou com medo da destruição. Depois que acabou, pediu pra sair e ficou sentado no pátio. Esperamos uns instantes, Camila ficou na roda com os demais e saí para conversar e perguntar se estava acontecendo alguma coisa, pois pareceu a ela que ele estava regredindo.

Primeiro me disse porque os meninos não tinham vindo: uns por outros compromissos, o menino skatista por trabalho, outros por preguiça mesmo. Depois comentou que estava chateado e na sua dificuldade de se expressar e comunicar, não conseguia dizer claramente como se sentia ou o que acontecia. Perguntei se estava indo bem na aula, se tinha resolvido o problema de algazarra na sala, já que a última vez que tínhamos conversado sobre isso propus que ele conversasse com os colegas ou escrevesse algo que pudesse ler pra sala. Disse que estava tudo bem e sua dificuldade agora era estudar em casa, pois a familia o pressionava para ser “inteligente” como o pai, que ele reconhecia como um “nerd”, sabe-tudo. A única queixa clara que ouvi era a confusão instalada nestas discussões em família: ele não sabia o que seus pais queriam dele querendo dizer que chegaram a procurar ajuda em terapia.

O menino gentil surgiu, informando que tinha acabado e falando dos colegas, as crianças foram saíndo pois a roda tinha terminado e assim; ficamos de continuar conversando depois, mas comecei a perceber neles, algo que a Camila também tinha percebido, que eles queriam mesmo aquela atenção que os resgattou. Gostaram daquele olhar que percebe que você existe e está ferido e estavam buscando maneiras de obter mais dele, buscando assistência, desistindo do desenvolvimento da sua própria autonomia, dos passos seguintes.

Despedimo-nos, pensando no que fazer para a próxima roda. Rogério insistiu bastante em que adotassemos um livro juvenil sobre a história da região do Capão Redondo, tratando os temas da comunidade e a atitude hip-hop que as personagens adotaram – achei sua ideia muito interessante que deveria ser aproveitada num momento mais oportuno, pois o grupo da 8a./7a. não tínha evoluido neste semestre nas questões de identidade e autonomia, além de não terem trazido para a roda nenhuma questão ou prazer envolvendo suas relações comunitárias. Percebi nele muita ansiedade de implantar suas ideias, fazer valer sua vontade, o que me soa como algo positivo sob muitos aspectos e perfeitamente normal pra quem não costuma ser ouvido: quer provar que tem coisas boas pra dar, que alguém também registre sua evolução. Minha preocupação com este ponto, já que eu também, por muito tempo depois que me fiz notar, agi assim, é se fechar para o que ocorre em volta, para as interações: você foi tão oprimido com as opiniões alheias e certamente, subestimado, que quando se dá voz, quer falar tudo, sem ouvir as respostas e as perguntas do outro. Procurei agradecê-lo pelo interesse, pela ideia e iniciativa, esclarecendo porque aquela ideia ainda não era propícia para o grupo, deixando uma questão para refletir: como o grupo dele estava respondendo à sua proposta.

Engraçado, que a mesma situação aconteceu com a dona Edivania, esposa do caseiro, que foi até a sala onde estávamos guardando as coisas, oferecendo um dos seus bolos de fubá, por cinco reais cada. Como eu tinha comprado dela outras vezes, esperava vender e insistiu bastante, falando com orguho que tinha mudado um ingrediente na receita para o bolo ficar mais gostoso: leite de coco. Tinha certeza que ela precisava do dinheiro, mas eu não poderia levar o bolo, já que, estando sozinha nos próximos dias, eu acabaria jogando uma parte fora. Elogiei o bolo para os colegas, que não o compraram e expliquei a ela por quê naquele fim de semana eu não o levaria. Insistiu mais pouco e eu, pacientemente, expliquei mais um pouco.

Em casa fiquei pensando como agir na semana que vem, avaliando os últimos encontros: com a turma com quem iniciei, não evoluímos, ficamos estáveis num ponto alcançado no semestre passado. Embora o Dodô tenha ido na escola para colher deles alguma informação sobre o motivo das faltas e não tenham dito nada em especial, entendo que é uma queda natural, mas influenciada pela entrada de novos alunos de outras séries.

Chamamos mais crianças, mas nos desorganizamos para atendê-las, não conseguimos responder ao movimento delas, cativando-as a permanecer – o que exige escuta, disposição, dedicação e empenho. Não só não seguramos todas as crianças que vieram, como praticamente perdemos as que vinham. Perdemos o propósito e com isso, perdemos a garra, ou como diria Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas, “a gã que dá corpo ao suceder”.

Lembrei-me de um professor da faculdade: quando ele dava aula, conseguia silêncio total dos 90 alunos da sala e arrancava aplausos no final, todos os admiravam e quase ninguém faltava. Claro: bom comunidor, inteligente, organizado na pauta da aula, carismático, um artista que falava da matéria fazendo link com coisas da vida que tinham a ver com atitude diante da vida. Embora eu também gostasse dele e me divertisse muito com suas tiradas, sempre lamentei o seu desâmino em interargir com a sala: nada de trabalhos em grupo, nada de espaços para perguntas, nem as provas ele gostava de aplicar ou discutir atividades complementares que os alunos levavam para ele assinar – poderia orientar, mas preferia assinar e achava isso um aborrecimento.

Perguntei o que ele achava do Paulo Freire, que era contra aulas expositivas propunha debate, diálogo, co-autoria dos alunos. Ele me disse: “Lindo ! Um iluminado !” Pois é, uma luz que lhe era completamente inútil. Por quê? Porque dá trabalho – como todas as coisas realmente boas da vida, é difícil no começo e fica fácil depois, mas desistimos no começo. Dá trabalho interagir e dialogar com as pessoas, mediar os interesses, conhecimentos, manter uma condução inspirada e permantente a um objetivo via uma liderança que atrai o esforço voluntário e o entusiasmo das pessoas em contribuir, fazer-se presente.

É uma luta, Paulo Freire dizia, que requer uma atenção dedicada e constante do ouvir, do sentir, do pensar e do agir. Pra atingirmos esse grau de evolução precisamos lutar contra a inércia, o comodismo, o medo, a procrastinação e o espírito opressor que não gosta de movimento, não gosta de vida, mantém uma relação necrófila com as pessoas: eu falo-eu-sei-eu-mando e você-escuta-não sabe-obedece: quando somos o “você”, lutamos para ser o “eu” e não para ser “sendo autêntico” com o outro. É o drama do menino da geladeira, do menino gentil, do Rogerio, da dona Edivania, de todos nós. Precisamos buscar conscientização para não cairmos nesse escuro novamente, pois não adianta apenas condicionar comportamento, temos que mostrar outras atitudes e inspirar a adesão pelo exemplo, pelo significado: novo comportamento nascido de conscientização tende a criar raízes, que requer cuidado constante para se desenvolver.

Lembrei-me da menção do menino que tinha ido na Pinacoteca, da fase azul de Picasso quando a Camila levantou uma das figuras. Ele não se lembrou do significado, apenas da cor, o que, considerando as condições, é um grande feito. Fiquei pensando: a fase azul de Picasso foi uma fase sombria, de solidão e de abandono, com temas recorrentes como a cegueira, a escassez, em quadros como Camponeses dormindo e The frugal repast, que retrata um homem cego e uma mulher, magros, desolados. Reconhecer esta fase é a melhor maneira de superá-la.

Provavelmente temos apenas dois sábados pela frente neste semestree talvez seja melhor manter a questão da identidade levando mais algumas histórias interessantes – fizemos, certamente, um dia especial em cada encontro com começo, meio e fim, inspirações e ideias úteis para quem estava lá; soubemos liderar com o inesperado, os momentos foram bem vividos.

Bom pensar também na continuidade do próximo semestre depois das férias escolares: com mais consciência, empenho e paixão, determinados a alcançar evolução naquilo a que nos propusemos: formação do sujeito por meio da leitura, baseados na educação.

Formação com grupo da diversidade

Raquel é estudante de jornalismo e procurava por um trabalho voluntário que reunisse um bem social com a sua ânsia por leitura. Jogou na internet e encontrou o site da Fundação Dixtal. De prontidão se inscreveu para atuar como mediadora de leitura e convidou a amiga Débora, que estuda engenharia.

Alfredo é advogado e há tempos procurava uma instituição onde pudesse atuar como voluntário. Fez cadastro no site voluntarios.com e ficou a espera do contato de alguma organização. “Foi a Fundação Dixtal que me achou, quando me ligou convidando para a formação”, contou. Quando veio, trouxe também a publicitária Fabiana.

E foi com assim, um indicando para o outro, cada um trazendo mais um, que a formação de voluntários do último sábado, 15, aconteceu com um grupo de 24 pessoas. Eram pessoas das mais variadas faixas etárias, desde estudantes do ensino médio a pessoas aposentadas. E essa diversidade tornou o dia rico em aprendizado e diversão.

Para começar, uma Roda com o livro Eu quero ser, de Tony Ross. Na história, uma princesinha – nomeada pelo grupo de Marina Carolina de Souza Fernandes – queria ser “gente grande” e começa a colher conselhos de como atingir seu objetivo. No salão, a construção de um mural de conselhos para que a caminhada nunca pare.

Ao final do livro, a princesinha se depara com a pergunta: “O que você quer ser?”. E, quando ela diz querer ser alta, seu amigo príncipe Arthur diz que ela já é alta (afinal é maior que ele). O grupo discute os pontos de vista diferentes e de como isso é importante para um olhar mais nítido do coletivo.

Depois do almoço, muitas risadas para montar a tradução do texto Risólum no Ploforal, de Leila Darin. No documento algumas palavras que não fazem parte de nosso vocabulário precisavam ser substituídas para completar a leitura. E eram elas que davam o tom cômico à atividade.

No fim da tarde, outra mediação de leitura encantou os participantes, com o livro Julieta de Bicicleta, de Liana Leão. Brincaram de serem escovas de dente, correndo de um lado para o outro. E passaram a conhecer, junto com a Julieta, o mundo depois da curva.

Roda VII – Bonitando o amor

Embora mantivéssemos o tom de busca da identidade trabalhando com o tema futebol, pensei nas necessidades de outros quatro alunos que começaram a participar da roda deste ano e encontrei ideias que nos fizeram dar uma pausa no futebol por dois sábados. Neste, escolhemos trabalhar a auto-estima e a estima ao outro através de um texto do Artur da Tavola e uma dinâmica com uma caixa de presente.

Este sábado amanhaceu frio, mas com o céu aberto. No avançar das horas, o calor foi chegando, nos abrançando, nos deixando contentes. A escola estava especialmente cuidada e por isso, bonita, com os pátios e salas de aula limpos, o corredor de entrada cheio de vasos com plantas e pedrinhas coloridas, jardineiros aparando o jardim. Na sala que usariamos, além de tudo limpo e organizado, as caixas da fundação estavam ali, esperando por nós. Uma delas era uma cesta de vime – de mesmo material e formato que meu porta-lápis favorito, que coincidência! – cheios de livros recomendados para os alunos as 8as. e 7as. séries, podendo emprestá-los, como havia me dito o Dodô no dia anterior.

Camila e os alunos foram chegando, 6 meninos e 4 meninas: o menino gentil, o menino da geladeira, o menino hiperativo, o menino paciente – que passou a vir às rodas com mais frequencia este ano e sempre diz e mostra que sua maior qualidade é a paciência, ao colocar atenção em tudo e tolerar as algazarras -, o menino que acompanhou o pai na roda de pais e pra quem tínhamos ligado na roda passada perguntando quando voltaria pois sentíamos sua falta, o menino hiperativo, um menino da quinta série, trazido pelo menino da geladeira, e das meninas, duas meninas leitoras.

Organizamos as carteiras em circulo, com os panos coloridos, o tapete da roda ao centro com os livros, ouvindo Jason Mars. Começamos com a dinâmica da caixa de presentes, que na verdade, era uma lata circular alta, encapada com papel de presente e laço de fita; dentro, uma capa de cartolina branca e no fundo, um espelho. Dissemos a eles que tinhamos colado a foto de uma pessoa muito importante e conhecida que eles deveriam identificar e dizer o que dariam a ela se tivessem plenos poderes. Surpreenderem-se, acharam até engraçado, mas não se divertiram tanto quanto esperávamos.

Pode ser porque estavam menos despertos esta manhã ou porque foi chocante pensar que a imagem da pessoa importante era deles mesmo. Disseram coisas valiosas, que poderiamos aproveitar muito nos passos seguintes: o menino do pai, daria um chute – desde sua primeira participação, embora quieto, sorridente e participativo, ao se referir a si mesmo, sempre se deprecia e com uma certa raiva. O menino hiperativo achou graça e disse, como quem realmente acha que merece e com gosto: “Eu daria um presente pra ele!”; o menino gentil, deu um tom de desapontamento, esperava que fosse alguém realmente importante, mas disse que daria a pessoa uma nova história de vida, “pra ser gravada em dvd depois.” O menino da quinta série disse que daria uma casa, os demais, inclusive o menino da geladeira, mais convencido de sua importância, escolheram objetos como videogame, câmera digital. Uma das meninas disse que daria algo que a fizesse feliz e a menina leitora, “Um futuro.”.

Pensamos que o bem desejado está, em geral associado a algum bem material, um sinal de que deveriamos continuar perseverando em questões de maior valor como o amor, o conhecimento, os relacionamentos. De qualquer modo, achei interessante que a maioria pensou em se dar presentes, o que pra mim significa um avanço importante, assim como ver a maioria interessada em ler um trecho de cada texto que levamos, pequenas iniciaivas de prática de leitura que certamente eles desenvolverão, cada um a seu tempo.

Fomos para a mediação do texto do cronista Artur da Tavola, Fazendo o amor bonito, do seu livro, infelizmente esgotado na editora, chamado “De amor”. A ideia foi ilustrar os cuidados para perpetuar e expandir o amor, o que ele chama de fazer bonito, bonitar e isso era bom de aprender a fazer com o outro e, pegando o gancho da dinâmica da caixa, para fazer a si mesmo.

“Talvez seja tão simples, tolo e natural que você nunca tenha parado pra pensar: aprenda a fazer bonito o seu amor! ou fazer o seu amor ser ou ficar bonito. Aprenda, apenas, a tão difícil arte de amar bonito. Gostar é tão fácil, que ninguém aceita aprender.

Tenho visto muito amor. Amor mesmo, bravios, gigantescos, descomunais, profundos, sinceros, cheios de entrega, doação e dádiva. Mas que esbarram na dificuldade de se tornar bonitos. Apenas isso: bonitos, belos, embelezados, tratados com carinho, cuidado e atenção. Amores levados com arte e ternura de mãos jardineiras.

Amores verdadeiros, ternos, de repente se percebem ameaçados, tão somente porque não sabem ser bonitos: cobram; exigem; rotinizam; descuidam; reclamam; deixam de compreender; necessitam mais do que oferecem; precisam mais do que atendem; enchem-se de razões. Sim, de razões. Ter razão é o maior perigo do amor. Quem tem razão sempre se sente no direito ( e o tem) de reinvidicar, de exigir justiça, equidade, equiparação, sem atinar que quem está sem razão talvez esteja vivendo um momento no qual não possa ter razão. (…) Amar bonito é saber a hora de ter razão. E é saber ter razão.(…)

Cheio ou cheia de razões, você espera do amor somente o que é exigido por suas partes necessitadas, quando, talvez, ele devesse pouco esperar, para valorizar devidamente tudo de bom que ele pode trazer. Quem espera demasias sofre, deixa de amar bonito. Sofrendo, deixa de ser alegre, igual, irmão, criança. Sem soltar a criança, nenhum amor é bonito.

(…) Para quem ama, toda a atenção é sempre pouca. Quem ama feio não sabe que pouca atenção pode ser toda a atenção possível. Quem ama bonito não gasta o tempo dessa atenção, cobrando de quem deixou de manifestá-la.

(…) não teorize sobre o amor, ame. Siga os destinos dos seus sentimentos aqui e agora.

Não tenha medo, (…) seja apenas você no auge da sua emoção e carência, exatamente aquele você que a vida impede de ser. Seja você cantando desafinado, mas cante todas as manhãs. Falando besteira, mas criando sempre.

Gaguejando flores. Sentindo o coração bater como quando esperava Papai Noel e temia vê-lo.Revivendo os carinhos que intuiu em criança. Sem medo de dizer eu quero, eu gosto, eu estou com vontade.

Talvez aí você consiga fazer o seu amor bonito, ou fazer bonito o seu amor, ou bonitar fazendo o seu amor, ou amar fazendo bonito (a ordem das frases não altera o produto). O seu amor precisa ser tudo o que você é, e , nunca: deixaram, conseguiu, soube, pôde ou foi possível.

Se o amor existe, seu conteúdo já é manifesto. Não se preocupe, pois, com ele e suas definições. Cuide agora da forma. Cuide da voz, cuide da fala. Cuide do cuidado. Cuide do carinho. Cuide de você. Ame-se o suficiente para ser capaz de gostar do próprio amor e só assim, tentar fazer o seu amor feliz.”

Acabei não lembrando de tirar cópias do texto ou pedir ajuda pra isso. Como era um texto mais complexo, resolvi oferecer a leitura compartilhada, buscando mediação durante, o que não funcionou muito bem, houve muitos momentos em que tiveram sono. Ponto de atenção pra mim, para persistir nos cuidados que fazem o este amor ficar bonito.

Por outro lado, houve muitos momentos em que deram respostas positivas: manifestações de compreensões – para as mãos jardineiras, o exemplo dos jardineiros que estavam trabalhando na escola naquele momento, ou interesse sobre as palavras que não conheciam com perguntas inteligentes como a da menina leitora: “Estrategema, o que é? qual o contexto?”, atenção olho no olho em alguns trechos, especialmente lidos pela Camila e eu no final, já que líamos mais alto e de forma mais eloquente; apreciaram. “Profundo, pra refletir.”, disse uma das meninas, “Tem muita coisa aí que fala sobre o que estou vivendo agora”, disse o menino da geladeira. Até mesmo o menino do pai que dava sinais de impaciência entre o fim da dinâmica e o começo do texto, tinha gostado: senti que pra ele parecia uma bobagem se considerar importante e muito mais, achar que merecia algo de bom, um amor bonito. Segui minha intuição e nas paradas para comentarmos, perguntava pra eles se alguém sabia por que acontecia coisas ruins para pessoas importantes? O menino gentil interviu: “Acontece coisas ruins para todo mundo.”. “Então, as coisas ruins não querem dizer que somos ruins, são dificuldades se podemos utilizá-las para compreender alguma coisa, ganhar mais conhecimento.”

Contei o exemplo dos surdos com quem me encontrei no escritório, no projeto de diálogos. Expliquei que fazíamos uma roda como aquela para dialogar sobre engajamento, um ato de atender a uma causa, com vontade de fazer dar certo. Como fazer um diálogo entre ouvintes e não ouvintes? Como um surdo, que consequentemente não fala, tem a coragem de pedir para participar de uma conversa? Pois é, lhes disse, eles pediram um intérprete e foram lá. Sabe qual é o maior sonho deles? Não é ouvir. Seu maior sonho é se comunicar com todos: se fazer entender e entender o outro, pois como nasceram sem audição, pra eles isso não é uma deficiência, é uma característica. Do nosso ponto de vista, podemos encarar com uma coisa ruim e por isso, alguns poderiam pensar que eles não são importantes, Deus não deu bola pra eles, por exemplo.

Mas eles não; por se saberem importantes, quiseram participar de uma ação que registraria suas opiniões e auxiliriam na causa que estava sendo proposta naquele projeto.

Quem, afinal, não é importante?

Finalizamos com fotos para utilizarmos na próxima roda – pensamos em montar pastas com os materiais que produziriam e receberiam e com isso, começariamos a dar práticas de fazer o amor bonito, como por exemplo: organizar um espaço para ler e estudar em suas casas, na escola. Vamos tentar elaborar um kit simples pra ser usado na roda para que eles escolham os componentes e assim montem o espaço pra si onde mediaremos as leituras e faremos as atividades, como a exercitar neles o esforço de abrir seus espaços, fazer suas escolhas e se empenhar em produzir algum bem, alguma visão de futuro, consciência da importância do momento presente, do amor, do outro e de si.

Melhor de tudo foi quando mostramos os livros da fundação, dizendo que eles poderiam ser emprestados: depois de matarem a curiosidade, o menino gentil escolheu um livro de quadrinhos de estórias de suspense, o menino da geladeira escolheu um livro de poesias, o menino paciente escolheu um romance de aventura e uma das meninas, escolheu um livro mais infantil e ilustrado. A menina leitora nos pediu o Diário de Anne Frank, o que vou ver com a Fundação e o menino do pai disse, com segurança e sem se preocupar em ser simpático, que naquela semana não queria ler nada, o que achei uma grande resposta: naquela semana não, quem sabe na próxima…

Perguntamos qual prazo precisavam: alguns devolveriam em uma semana, outros em duas ou três.

Despedimo-nos, se a bola estivesse lá, os meninos ficariam mais um tempo, o menino da geladeira ficou na sala ao lado praticando dança e ficaria ali até a hora de sairmos e na balbúrdia do tchau-tchau, vê o livro daqui, fala de lá, o menino hiperativo e se põe de pé, no meu caminho me dá um abraço apertado e um beijo estalado na bochecha, sem dizer nada. Lindo, melhor abraço de despedida da semana.

Voltei pra casa, satisfeita, com planos e pensando: puxa, já fizemos 7 encontros. Embora houvesse uns sete meninos que vinham sempre, por causa da idas de vindas de novos alunos, era difícil estabelecer uma rotina sequencial como um campeonato, uma gincana ou concurso com fases de classificação. Deveríamos pensar no plano para o dia, com bastante flexibilidade para atender às necessidades, contando de fazer o melhor possível, especialmente o amor, que de beleza em beleza provoca os encontros e as transformações que esperamos.

Roda VI – Festa da vontade

Os primeiros minutos de um novo dia são sublimes – parece uma palavra exagerada, mas não: se o dia não nasce nublado, mas tem umas nuvenzinhas aqui e ali, o céu de um dia recém-nascido é perolado, chegando no rosa, no carmim, com aquele céu azul clarinho, a luz que envolve tudo fica muito aconchegante, acolhedora. Quando bate aquela brisa, dá pra sentir o frescor, que revigora o ânimo.

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O dia foi se iluminando, fui arrumando as coisas pra ir à escola, panos e tapete coloridos, músicas: Linkin Park, Will.I.am., Vinicius de Morais, Michael Jackson, Jay-Z, Jason Mars. Hoje, para dividirmos as turmas entre os novos voluntários, faríamos uma roda musical com quem viesse. Combinado pra começar às 9h30, desde as 8h30 quando cheguei, os meninos começaram a chegar: dois da nossa roda original foram os primeiros: o menino gentil e o menino skatista que tinha deixado de vir pois passara a trabalhar aos sábados e agora, sem trabalho, voltava animado: também nos ajudou a organizar a sala: carteiras recolhidas, cadeiras em circulo grande para umas quarenta pessoas, chão varrido, som instalado, músicas testadas. O restante dos meninos da 8a. série e Camila, foram chegando um pouco depois e as demais crianças – rostos novos, 38 ao todo, perto do horário com a Bruna, o Rogério e o Dodô.

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Tive uma sensação de felicidade muito grande em vê-los, sinto-me bem em estar com eles e ajudá-los a despertar a consciência de si, do amor, das atitudes construtivas. Dessa forma eu também não volto a adormecer e faço mais pelos meus sonhos.

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Dos meninos e meninas que iriam fazer uma apresentação musical, metade veio, mas ficou desencorajada de se apresentar. Então, todos falaram seus nomes e as séries em que estavam e perguntamos o que gostam na música, o que sentem por ela. Alguns falaram, mas estavam quietos, esperando pelo que viesse. Resolvemos colocar trechos de algumas músicas, pedindo para que falassem o que gostavam nos diferentes sons. Poucos se manifestaram, alguns se animaram, mas a maioria continuou calada – exatamente como da primeira vez, no ano passado, lembrei-me. Resolvemos desfazer a grande roda, propondo ao grupo dividí-las conforme as séries. Foi difícil tirar uma opinião deles, mas alguns começaram a se manifestar e então, três novos grupos foram formados.

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Na nossa roda ficaram os 8 meninos da 8a. série e mais 7 meninos e meninas das 7as. e 6as séries que quiseram ficar conosco. Aliás, em parte por causa do menino hiperativo que, inconformado em se ver sem meninas na roda, começou a chamá-las pra participar com a gente, uma figura.

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Como os meninos começaram a ficar à vontade para dançar, ao som das músicas de pista, de balada, dançavam entre si – demos então 10 minutos para se apresentarem e outros cinco para que os colegas dissessem o que achavam. Não disseram muito, mas pra quem dançou, a sensação foi ótima: dançaram com vontade, fechando os olhos, rodopiando, só vencidos pelo cansaço, estirados no tapete da roda. Vi que adoravam mesmo dançar.

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Como tínhamos mais meia hora, resolvemos falar sobre um trecho de livro que eu tinha levado para ilustrar as apresentações sobre música e dança,fazendo uma ligação sobre o que estávamos construindo neles, a consciência de sua identidade, e retomaríamos o futebol, com os livros que o Dodô trouxera; A Bola e o Goleiro do Jorge Amado. Diminuímos o tamanho da roda, colocamos o tapete da fundação no centro e combinamos de ler os dois.

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O menino hiperativo que estava lá, agitado com todos os vai-vens, sentou-se e começou a se entreter com os joguinhos do celular do amigo. Poderíamos deixá-lo ali, mas por outro lado ele estava perdendo a roda e então, ao invés de repreendê-lo ou coagí-lo, pedi a sua atenção:

- Querido, queremos a sua atenção aqui com a gente !

E ele se voltou, ofereceu-se pra ler um trecho do livro. Simples assim, depois de nos empenharmos e aceitá-lo como ele é.

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O menino skatista, empolgado, falou que gostaria de ser voluntário, pois achava a roda muito legal e de fato, ele é bem avançado para a turma: entende os significados dos trechos que passamos, compartilha mensagens positivas, até ajudar a concentrar a atenção do menino hiperativo ele se presta a ajudar e como da vez em que participou no ano passado, ajudou a reorganizar a sala depois que acabamos.

- Professora, não sabia que gostava do Linkin Park !

- Adoro !

- Eu ouço quando estou no skate !

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O livro que levei, A Coragem de Crescer, de Maria de Melo, tem um capítulo chamado Liberdade para Sonhar. O trecho foi seguinte: “Lembre-se de que alguém em você sabe perfeitamente o significado do seu sonho. É só ter coragem de deixar este alguém falar, de não atrapalhar. Dar espaço. Sem pressa: não feche nada antes da hora. Aguente ficar com as coisas em aberto, sem forçar conclusões só para livrar-se da incômoda sensação de não saber ainda, de não ter a explicação final. Tomar qualquer caminho só para não ficar na encruzilhada é sinal de medo, ansiedade. Se a ansiedade é muita, respire fundo, expire, principalmente. (…) Desapegue-se, entregue-se. (…) Confie na vida!”

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Tentando mediar, retomei o elo da música com bem-estar, com sonho, perguntando sobre o significado, sobre a falta de significado e sobre a necessidade deles confiarem neles mesmos e começarem a abrir espaço para que seus sonhos se manifestem e assim, de atenção em atenção, irem se conduzindo onde desejam chegar. O menino gentil, o menino da geladeira, o menino skatista, o menino falante e outros dois meninos novos, deram uma atenção concentrada, parecia que estavam verdadeiramente escutando a mensagem, embora fizessem poucos comentários. Os demais estavam apenas calados.

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Mudamos para A Bola e o Goleiro e, com poucos exemplares, partimos para a leitura compartilhada pois disputavam quem leria e leram alguns trechos mesmo com o som quase ensurdecedor da fanfarra que ensaiva no pátio em frente à sala onde estávamos. Tivemos que encerrar, dizendo que já era hora, senão parte deles eles continuaria.

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Combinamos que chegaríamos às 9h no próximo sábado, continuando com o a leitura do livro e mesmo com toda aquele som, eles ficaram e colocaram todas as carteiras no lugar. Fiquei admirada e a cada dia, meu amor por eles cresce e me orgulho deles aumenta pelos seus progressos – acreditar em alguém e perseverar nisso, é muito poderoso mesmo.

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De saída da escola, Camila e eu conversávamos sobre os próximos passos. Pensamos que seria bom dar um fechamento na ênfase da identidade, pois uma vez depertos de parte do valor de si, agora era hora de ajudá-los a despertar o interesse pelo empenho nas práticas que os ajudariam a se realizar como ler, estudar, começando a levantar o nível das leituras e atividades.

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Mas ainda era necessário, atingir o menino feliz, que passa quase todo o tempo da aula de cabeça baixa e encurvado sobre as pernas, e não consegue fazer as atividades por si mesmo, precisando de muito encorajamento e ajuda. Também, se as meninas continuassem, pelo menos duas delas me causaram a impressão de que também precisavam de mais ajuda na conscientização da sua identidade.

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Na próxima roda, continuaremos com a Bola e o Goleiro e levariamos um filme de curta metragem sobre um amigo de Pelé que a Camila encontrou, sobre os impactos que esta amizade causou a ele.

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Vim pra casa, buscando pensar positivimente, inspirada até pelo livro Positividade, de Barbara Fredrickson que a Fundação recomendou e o Rogério me emprestou. Agir positivamente é um forte estímulo para o crescimento e verdadeiramente somente nos últimos anos é que tenho dado os meus primeiros passos nisso.

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Os frutos são impressionantes, mas ainda há muito o que fazer: foram atraídos, alguns cativados e agora, era preciso desenvolvê-los. Quando vejo uma roda assim, de 38 alunos, sinto-me aflita em corresponder pois eles deram um passo importante na busca de alguma felicidade: não temos o direito de esperar que parte deles desista, sequer lhes dizer isso.

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Temos obrigação de constatar que a realidade tem sido esta e grande parte dos voluntários vai mudando os rumos de suas próprias vidas. Mas temos o dever de mudar a história. Talvez não com os mesmos voluntarios, pedindo para que fiquem, mas com os que estão chegando, cheios de vontade de fazer algum bem, algo novo em suas vidas.

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As dificuldades são uma oportunidade de superação, de aprendizado e costumamos encará-las como uma evidência de que não dará certo, o que é um erro, tenho aprendido.

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Nesta semana, no escritório, estamos fazendo um treinamento sobre engajamento, que tem um formato de diálogos em círculos, grupos de 8 a 10 pessoas se auto-organizam, se auto-gerenciam, e dialogam e isso é uma novidade, pois ali, as “conversas” não tem sido conversas, são um fala-daqui-fala-de-lá de cima pra baixo e vice-versa. Um diálogo requer um movimento horizontal.

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Uma funcionária foi chamada pelo gestor a participar e ela era surdo-muda. Ao se ver no grupo, ficou ali, em frente ao video de abertura. Somente depois os colegas avisaram de sua condição, fiquei penalizada pois tínhamos intérpretes de libras e poderiamos ter nos preparado para a situação. Dei a ela a alternativa de fazer este diálogo outro dia, em outro local com um intérprete: pra ela, sorridente e entregue disse que tanto faz e os colegas se prontificaram a chamar um outro que conhecia libras para auxiliá-la e assim, participou.

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Nessas horas, costumo deixar os grupos sozinhos e volto mais tarde para colher percepções sobre o clima entre eles e tentar capturar algumas pérolas. Fiquei surpresa em ver a desenvoltura dela em manifestar suas opniões e também policiar o grupo para garantir que as opiniões estavam sendo registradas nas folhas de respostas. As dificuldades que ela tinha, serviam como desafio para fazer melhor e acredito que tenha aproveitado mais o momento do que qualquer outra pessoa daquela sala: uma surdo-muda dialogou melhor que os demais, com audição e fala perfeitos.

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Dificuldade é nada, vontade é tudo – e o sucesso pode ser mais vistoso em quem tem vocação para uma atividade assim ou assado, mas todos podem fazer a diferença com que o tem pra dar e ainda por cima, evoluir, depende da vontade. E aí, acho que o nosso desafio nas rodas com os participantes e conosco, voluntários, é despertá-la. Não vejo outro caminho senão do amor, da perseverança, da positividade. Com isso, tudo se ajeita e se resolve, até o impossível.

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