Embora mantivéssemos o tom de busca da identidade trabalhando com o tema futebol, pensei nas necessidades de outros quatro alunos que começaram a participar da roda deste ano e encontrei ideias que nos fizeram dar uma pausa no futebol por dois sábados. Neste, escolhemos trabalhar a auto-estima e a estima ao outro através de um texto do Artur da Tavola e uma dinâmica com uma caixa de presente.
Este sábado amanhaceu frio, mas com o céu aberto. No avançar das horas, o calor foi chegando, nos abrançando, nos deixando contentes. A escola estava especialmente cuidada e por isso, bonita, com os pátios e salas de aula limpos, o corredor de entrada cheio de vasos com plantas e pedrinhas coloridas, jardineiros aparando o jardim. Na sala que usariamos, além de tudo limpo e organizado, as caixas da fundação estavam ali, esperando por nós. Uma delas era uma cesta de vime – de mesmo material e formato que meu porta-lápis favorito, que coincidência! – cheios de livros recomendados para os alunos as 8as. e 7as. séries, podendo emprestá-los, como havia me dito o Dodô no dia anterior.
Camila e os alunos foram chegando, 6 meninos e 4 meninas: o menino gentil, o menino da geladeira, o menino hiperativo, o menino paciente – que passou a vir às rodas com mais frequencia este ano e sempre diz e mostra que sua maior qualidade é a paciência, ao colocar atenção em tudo e tolerar as algazarras -, o menino que acompanhou o pai na roda de pais e pra quem tínhamos ligado na roda passada perguntando quando voltaria pois sentíamos sua falta, o menino hiperativo, um menino da quinta série, trazido pelo menino da geladeira, e das meninas, duas meninas leitoras.
Organizamos as carteiras em circulo, com os panos coloridos, o tapete da roda ao centro com os livros, ouvindo Jason Mars. Começamos com a dinâmica da caixa de presentes, que na verdade, era uma lata circular alta, encapada com papel de presente e laço de fita; dentro, uma capa de cartolina branca e no fundo, um espelho. Dissemos a eles que tinhamos colado a foto de uma pessoa muito importante e conhecida que eles deveriam identificar e dizer o que dariam a ela se tivessem plenos poderes. Surpreenderem-se, acharam até engraçado, mas não se divertiram tanto quanto esperávamos.
Pode ser porque estavam menos despertos esta manhã ou porque foi chocante pensar que a imagem da pessoa importante era deles mesmo. Disseram coisas valiosas, que poderiamos aproveitar muito nos passos seguintes: o menino do pai, daria um chute – desde sua primeira participação, embora quieto, sorridente e participativo, ao se referir a si mesmo, sempre se deprecia e com uma certa raiva. O menino hiperativo achou graça e disse, como quem realmente acha que merece e com gosto: “Eu daria um presente pra ele!”; o menino gentil, deu um tom de desapontamento, esperava que fosse alguém realmente importante, mas disse que daria a pessoa uma nova história de vida, “pra ser gravada em dvd depois.” O menino da quinta série disse que daria uma casa, os demais, inclusive o menino da geladeira, mais convencido de sua importância, escolheram objetos como videogame, câmera digital. Uma das meninas disse que daria algo que a fizesse feliz e a menina leitora, “Um futuro.”.
Pensamos que o bem desejado está, em geral associado a algum bem material, um sinal de que deveriamos continuar perseverando em questões de maior valor como o amor, o conhecimento, os relacionamentos. De qualquer modo, achei interessante que a maioria pensou em se dar presentes, o que pra mim significa um avanço importante, assim como ver a maioria interessada em ler um trecho de cada texto que levamos, pequenas iniciaivas de prática de leitura que certamente eles desenvolverão, cada um a seu tempo.
Fomos para a mediação do texto do cronista Artur da Tavola, Fazendo o amor bonito, do seu livro, infelizmente esgotado na editora, chamado “De amor”. A ideia foi ilustrar os cuidados para perpetuar e expandir o amor, o que ele chama de fazer bonito, bonitar e isso era bom de aprender a fazer com o outro e, pegando o gancho da dinâmica da caixa, para fazer a si mesmo.
“Talvez seja tão simples, tolo e natural que você nunca tenha parado pra pensar: aprenda a fazer bonito o seu amor! ou fazer o seu amor ser ou ficar bonito. Aprenda, apenas, a tão difícil arte de amar bonito. Gostar é tão fácil, que ninguém aceita aprender.
Tenho visto muito amor. Amor mesmo, bravios, gigantescos, descomunais, profundos, sinceros, cheios de entrega, doação e dádiva. Mas que esbarram na dificuldade de se tornar bonitos. Apenas isso: bonitos, belos, embelezados, tratados com carinho, cuidado e atenção. Amores levados com arte e ternura de mãos jardineiras.
Amores verdadeiros, ternos, de repente se percebem ameaçados, tão somente porque não sabem ser bonitos: cobram; exigem; rotinizam; descuidam; reclamam; deixam de compreender; necessitam mais do que oferecem; precisam mais do que atendem; enchem-se de razões. Sim, de razões. Ter razão é o maior perigo do amor. Quem tem razão sempre se sente no direito ( e o tem) de reinvidicar, de exigir justiça, equidade, equiparação, sem atinar que quem está sem razão talvez esteja vivendo um momento no qual não possa ter razão. (…) Amar bonito é saber a hora de ter razão. E é saber ter razão.(…)
Cheio ou cheia de razões, você espera do amor somente o que é exigido por suas partes necessitadas, quando, talvez, ele devesse pouco esperar, para valorizar devidamente tudo de bom que ele pode trazer. Quem espera demasias sofre, deixa de amar bonito. Sofrendo, deixa de ser alegre, igual, irmão, criança. Sem soltar a criança, nenhum amor é bonito.
(…) Para quem ama, toda a atenção é sempre pouca. Quem ama feio não sabe que pouca atenção pode ser toda a atenção possível. Quem ama bonito não gasta o tempo dessa atenção, cobrando de quem deixou de manifestá-la.
(…) não teorize sobre o amor, ame. Siga os destinos dos seus sentimentos aqui e agora.
Não tenha medo, (…) seja apenas você no auge da sua emoção e carência, exatamente aquele você que a vida impede de ser. Seja você cantando desafinado, mas cante todas as manhãs. Falando besteira, mas criando sempre.
Gaguejando flores. Sentindo o coração bater como quando esperava Papai Noel e temia vê-lo.Revivendo os carinhos que intuiu em criança. Sem medo de dizer eu quero, eu gosto, eu estou com vontade.
Talvez aí você consiga fazer o seu amor bonito, ou fazer bonito o seu amor, ou bonitar fazendo o seu amor, ou amar fazendo bonito (a ordem das frases não altera o produto). O seu amor precisa ser tudo o que você é, e , nunca: deixaram, conseguiu, soube, pôde ou foi possível.
Se o amor existe, seu conteúdo já é manifesto. Não se preocupe, pois, com ele e suas definições. Cuide agora da forma. Cuide da voz, cuide da fala. Cuide do cuidado. Cuide do carinho. Cuide de você. Ame-se o suficiente para ser capaz de gostar do próprio amor e só assim, tentar fazer o seu amor feliz.”
Acabei não lembrando de tirar cópias do texto ou pedir ajuda pra isso. Como era um texto mais complexo, resolvi oferecer a leitura compartilhada, buscando mediação durante, o que não funcionou muito bem, houve muitos momentos em que tiveram sono. Ponto de atenção pra mim, para persistir nos cuidados que fazem o este amor ficar bonito.
Por outro lado, houve muitos momentos em que deram respostas positivas: manifestações de compreensões – para as mãos jardineiras, o exemplo dos jardineiros que estavam trabalhando na escola naquele momento, ou interesse sobre as palavras que não conheciam com perguntas inteligentes como a da menina leitora: “Estrategema, o que é? qual o contexto?”, atenção olho no olho em alguns trechos, especialmente lidos pela Camila e eu no final, já que líamos mais alto e de forma mais eloquente; apreciaram. “Profundo, pra refletir.”, disse uma das meninas, “Tem muita coisa aí que fala sobre o que estou vivendo agora”, disse o menino da geladeira. Até mesmo o menino do pai que dava sinais de impaciência entre o fim da dinâmica e o começo do texto, tinha gostado: senti que pra ele parecia uma bobagem se considerar importante e muito mais, achar que merecia algo de bom, um amor bonito. Segui minha intuição e nas paradas para comentarmos, perguntava pra eles se alguém sabia por que acontecia coisas ruins para pessoas importantes? O menino gentil interviu: “Acontece coisas ruins para todo mundo.”. “Então, as coisas ruins não querem dizer que somos ruins, são dificuldades se podemos utilizá-las para compreender alguma coisa, ganhar mais conhecimento.”
Contei o exemplo dos surdos com quem me encontrei no escritório, no projeto de diálogos. Expliquei que fazíamos uma roda como aquela para dialogar sobre engajamento, um ato de atender a uma causa, com vontade de fazer dar certo. Como fazer um diálogo entre ouvintes e não ouvintes? Como um surdo, que consequentemente não fala, tem a coragem de pedir para participar de uma conversa? Pois é, lhes disse, eles pediram um intérprete e foram lá. Sabe qual é o maior sonho deles? Não é ouvir. Seu maior sonho é se comunicar com todos: se fazer entender e entender o outro, pois como nasceram sem audição, pra eles isso não é uma deficiência, é uma característica. Do nosso ponto de vista, podemos encarar com uma coisa ruim e por isso, alguns poderiam pensar que eles não são importantes, Deus não deu bola pra eles, por exemplo.
Mas eles não; por se saberem importantes, quiseram participar de uma ação que registraria suas opiniões e auxiliriam na causa que estava sendo proposta naquele projeto.
Quem, afinal, não é importante?
Finalizamos com fotos para utilizarmos na próxima roda – pensamos em montar pastas com os materiais que produziriam e receberiam e com isso, começariamos a dar práticas de fazer o amor bonito, como por exemplo: organizar um espaço para ler e estudar em suas casas, na escola. Vamos tentar elaborar um kit simples pra ser usado na roda para que eles escolham os componentes e assim montem o espaço pra si onde mediaremos as leituras e faremos as atividades, como a exercitar neles o esforço de abrir seus espaços, fazer suas escolhas e se empenhar em produzir algum bem, alguma visão de futuro, consciência da importância do momento presente, do amor, do outro e de si.
Melhor de tudo foi quando mostramos os livros da fundação, dizendo que eles poderiam ser emprestados: depois de matarem a curiosidade, o menino gentil escolheu um livro de quadrinhos de estórias de suspense, o menino da geladeira escolheu um livro de poesias, o menino paciente escolheu um romance de aventura e uma das meninas, escolheu um livro mais infantil e ilustrado. A menina leitora nos pediu o Diário de Anne Frank, o que vou ver com a Fundação e o menino do pai disse, com segurança e sem se preocupar em ser simpático, que naquela semana não queria ler nada, o que achei uma grande resposta: naquela semana não, quem sabe na próxima…
Perguntamos qual prazo precisavam: alguns devolveriam em uma semana, outros em duas ou três.
Despedimo-nos, se a bola estivesse lá, os meninos ficariam mais um tempo, o menino da geladeira ficou na sala ao lado praticando dança e ficaria ali até a hora de sairmos e na balbúrdia do tchau-tchau, vê o livro daqui, fala de lá, o menino hiperativo e se põe de pé, no meu caminho me dá um abraço apertado e um beijo estalado na bochecha, sem dizer nada. Lindo, melhor abraço de despedida da semana.
Voltei pra casa, satisfeita, com planos e pensando: puxa, já fizemos 7 encontros. Embora houvesse uns sete meninos que vinham sempre, por causa da idas de vindas de novos alunos, era difícil estabelecer uma rotina sequencial como um campeonato, uma gincana ou concurso com fases de classificação. Deveríamos pensar no plano para o dia, com bastante flexibilidade para atender às necessidades, contando de fazer o melhor possível, especialmente o amor, que de beleza em beleza provoca os encontros e as transformações que esperamos.
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