Na roda anterior, combinamos Camila, Bruna, Rogério e eu que, sendo a útima roda, fariamos juntos, especialmente porque o número de participantes estava baixo. Combinamos de passar um trecho do filme Mãos Talentosas que conta a história de um dos mais célebres neurocirurgiões do mundo, que desvendou o seu talento por meio do empenho em estudar. O trecho que mostraríamos contava a história da sua infância: menino negro e pobre que tinha preguiça de estudar e se achava burro, com notas E e F no boletim; com incentivo da mãe para estudar, se empenhou até ganhar a sua primeira nota A. A Bruna, que ficou de elaborar uma atividade de encerramento, trouxe bexigas compridas para ensinar os alunos a fazerem uma escultura de cachorro nelas.
Do filme, a forma como sua mãe o incenticou, sendo analfabeta, divorciada – abandonou o marido quando descobriu que ele traficava drogas – vinha de encontro com algumas leituras recomendadas da fundação, que falam em psicologia sobre Mindset: ela dizia para ele que era capaz, e em seu cérebro havia todo um mundo que precisava ser descoberto, que poderia usar sua imaginação para compreender as coisas e sua inteligência estava ali para ser usada; quanto mais estudasse, mas inteligente ficaria.Ela precisou ser persistente para combater a resistência dele e principalmente sua preferência em passar as horas livres na frente da televisão.
Pensei em quantos participantes viriam naquele dia, especialmente por causa do movimento das últimas semanas, e das confusões que aconteceram. O menino da geladeira tinha me deixado um recado explicando porque faltara na aula passada, dizendo ter entendido que não haveria roda por causa de reposição de aulas marcada para o mesmo horário da roda. Procurei a fundação e a escola, mas ninguém sabia informar, estavam dispersos da nossa roda, possivelmente ocupados com outros assuntos; como de costume, geralmente consigo ajuda quando procuro e se ofereceram para tentar trazer mais alunos para esta roda. Discordei pois era o último sábado antes das férias e a pausa iria dispersar novamente, teriamos retrabalho em agosto.
Na escola, encontrei a coordenadora, preparando a sala para uma palestra aos professores e pude contar com a ajuda dela para obter outro notebook já que o meu não deu sinais de som, mesmo testando as caixas que a Camila trouxe e as da escola. Tivemos que ser persistentes, pois nada funcionava, inclusive o dvd e a tv da biblioteca inutilizada. Finalmente, conseguimos conexão e os meninos e meninas, ao todo 12, entre eles a menina da 8a. série que vinha há três sábados seguidos, o menino de Picasso sem o irmão, a menina leitora, e dois irmãos que tinham voltado por causa da promessa de passar o filme, que tínhamos comentado na aula passada. Nenhum dos meninos da 8a. série tinham vindo.
O menino de picasso trouxe de volta o livro que havia emprestado e dois quadros que a mãe pintava: um abstrato e um com um casal de adolescentes apaixonados; ele trouxe de volta o livro que o menino da 7a. série tinha trazido mais cedo, deixando o recado que não poderia vir para a roda pois precisava ficar com a avó. O interesse por artes era algo cultivado dentro de casa e possivelmente o ajudaria a se desenvolver mais.
Depois do filme, começamos a conversar sobre o trecho visto, pareceu-nos que tinham gostado, uma das meninas da 6a. série foi bastante falante e comentou todo o filme relembrando as partes que via, outra ficou animada com certas passagens, como a dos meninos, sobre o quanto era bom conseguir uma nota alta. Trouxeram várias histórias, do menino que dizia que não estudava e tirava 10: perguntamos se ele fazia as lições de casa e dissemos que pelo menos a atenção com as lições e na aula é mostra de de empenho; também de como as mães buscavam fazer com que os filhos estudassem mais ou fizessem as tarefas de casa: tiravam a internet. Aproveitamos estas associações com dever de casa para dizer que há o que aprender com que fazemos: o ganhamos em arrumar o nosso quarto? “Encontramos as nossas coisas”, “Fica tudo limpo e arrumado”, “Aprendemos a ser organizados.”, responderam.
Embora o bate-papo tenha ficado mais animado com a caixa de chocolates que a escola nos trouxe, o mais desafiante no filme era se dar conta de que possivelmente a mãe deles não os incentivava a estudar para ser tudo o que sonhava em ser na vida e provalvelmente não os incentivava da mesma forma. O que fazer? “Buscar ajuda de outras pessoas”, “Outros parentes”, “Amigos”, “Na escola”, em si mesmos, comentou o Rogério. A roda, lhes disse, era um dos espaços para incentivá-los a se descobrir, ser tudo o que quisessem ser por isso estavamos ali, lendo estórias e recebendo/dando mensagens.
A hora final da atividade, foi bem divertida: como transformar bexigas em cachorro. “Vocês são capazes, a ideia é mostrar que somos capazes de aprender coisas novas.”, disse Bruna E assim, entre risos e tentativas, todos fizeram cachorrinhos coloridos e partiram para suas férias.
Fiquei pensando depois, que a atividade tinha sido uma combinação perfeita com a ideia do filme: tínhamos um cérebro nas mãos, com um mundo a ser explorado, com ideias que poderiam ser concebidas de várias formas, poderiamos esculpir a nossa realidade, a nós mesmos como quiséssemos. Teria sido muito bom conversar sobre a atividade, mas a hora de ir chegou.
Lembrei-me dos meninos que não vieram e das conversas que tive nestas últimas semanas: quando reclamei por ajuda por causa da queda de participação, as reações mais reais diziam que sabiam que isso aconteceria, dizendo que era uma ilusão achar que chegaríamos a algum lugar com eles: o meio em que vivem, familiar e comunitário, desconstrói tudo o que a escola ou a roda constrói, a sociedade deformadora vence na maioria dos casos. Tenho certeza que muitas vezes me acham ingênua e arrogante: “tentamos de tudo, você acha que consegue o quê?”. Pode ser que estejam certos quanto as minhas atitudes, quando somos inexperientes, somos felizes, assim dizem das crianças, pois não nos frustramos ainda e acreditamos em tudo.
O que acho inadmissível em mensagens assim, é a falta de auto-observação: acreditam mais na deformação do que na formação – se escandalizam com tudo, generalizando uma tragédia de um, como sendo o caminho de todos, tendemos a ser mesmo mais negativos do que positivos e somos muito preguiçosos ou pouco humildes – do tipo que faz tudo, mas não revê se o que está fazendo é realmente eficaz, não pede ajuda, não encara a possibilidade de que talvez esteja fazendo esforço inútil, mal-orientado -, postura que vejo em toda parte até mesmo entre pessoas do escritório onde trabalho que tem responsabilidades importantes.
Que bom que tivemos nos história humana, pessoas comuns, intituladas gênios, que tiveram uma ideia e se esforçaram por ela, tentaram mil vezes, até acertar. Nós, abandonamos depois de duas ou três tentativas.
Quando voltei pra casa depois do meu compromisso, deitei-me pra ler, mas não consegui; fiquei um pouco arrasada com a incompreensão, com a descontinuidade – a impressão é que muitos esperavam pelo fracasso: deveriamos ter chegado a um bom desenvolvimento dos participantes da 8a. série, mas decaiu. A realidade é dura, a concorrência contra este trabalho no sentido inverso é dura. Mas é possível mudar. Já saí da fase adolescente que deseja mudar o mundo no grito, entrei na fase adulta de quem deseja mudar o mundo com esforço bem orientado, mão na massa cerebral e na massa humana pra fazer acontecer aquilo que esperamos e está só na cabeça ou no coração. Pra isso, tenho muito o que aprender, muito o que tentar.
Talvez eu esteja muito longe da solução que gostaria, mas não vou desistir de encontrá-la. Tenho boas ideias – educadores das escolas realistas, como Paulo Freire, o homem das ideias simples e muito difíceis de implementar pois requer muito coração, muita discplina e muita humanidade – e boas mãos, vou me dar ao trabalho de aprender mais e produzir até encontrar nova solução e viável. Enquanto isso, a semente vai germinando nos solos bons e naqueles não tão bons mas que nos damos ao trabalho de limpar e fertilizar ao longo deste semestre: tenho certeza que, apesar da inconstância da participação dos alunos, nenhum dos nossos esforços, empenhados com sinceridade de coração, ficarão em vão.
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